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O que vai mover o ponteiro da conectividade significativa no Brasil?

No livro The End of Telecoms History (“O Fim da História das Telecomunicações”, em tradução livre), William Webb provoca uma reflexão incômoda e necessária: ao contrário da narrativa de progresso contínuo baseada em “mais espectro, mais redes, mais velocidade”, chegamos a um ponto em que a história da telecom parece ter parado de avançar em direção a algo realmente novo. Ele argumenta que a evolução das telecomunicações não é uma linha reta, mas uma sucessão de rupturas. Contudo, a geração do 5G não habilitou a próxima ruptura tecnológica e por isso ainda patina na construção de modelos de monetização efetiva. O 6G parece que seguirá o mesmo caminho. Por isso, Weber sugere que a história das telecomunicações “acabou”.

Na prática, entramos em uma era em que a conectividade deixou de ser um produto premium para virar uma infraestrutura essencial, tão básica quanto energia ou saneamento. Nesse novo paradigma, não podemos insistir em olhar o espectro como um recurso a ser controlado e monetizado nos moldes do século XX, mas tratá-lo como habilitador de conectividade universal. Ainda enxergamos o espectro primordialmente como insumo para redes móveis licenciadas, quando a demanda por ambientes abertos, flexíveis e mais baratos cresce rapidamente. Persistir em uma política de espectro centrada no uso licenciado é insistir em velhos hábitos num mundo que já mudou.

É nesse espírito que surge a tese deste artigo: precisamos repensar o nosso modelo de gestão de espectro, ampliando a participação do uso não licenciado para garantir conectividade significativa e atender ao comportamento real dos usuários. Longe de ser uma ameaça ao mercado móvel, isso pode ampliar oportunidades para todo o ecossistema de telecom.

 

  1. Conectividade significativa exige mais que cobertura: demanda liberdade de uso

O conceito de conectividade significativa, cada vez mais presente nas discussões (nacionais e internacionais) de políticas públicas e incorporado em análises do NIC.br, vai além da presença de infraestrutura de conexão. Ele pressupõe qualidade, regularidade e liberdade para usar a internet quando e como for necessário. Essa liberdade inclui o uso da internet sem o receio de estourar franquias ou limitar atividades por conta de custos adicionais.

No Brasil, essa liberdade é historicamente encontrada na banda larga fixa e no Wi-Fi, não no móvel. Não é à toa: grande parte dos planos móveis ainda funcionam sob lógicas de franquia, enquanto a banda larga fixa oferece modelos mais acessíveis e sem limites de tráfego. Compartilhar o Wi-Fi é parte da vida de muitos brasileiros, que dependem da banda larga fixa para acessar conteúdos mais relevantes no seu dia a dia.

Quando olhamos os dados de tráfego, vemos que a experiência que realmente empodera o usuário brasileiro está na banda larga fixa. Se essa é a experiência que a população deseja e valoriza, por que continuamos destinando a maioria do espectro às redes licenciadas móveis?

 

Se queremos aproximar a política pública das necessidades da população, precisamos construir um modelo mais equilibrado, abrindo mais espaço para o uso não licenciado e pensando seriamente em mecanismos de compartilhamento efetivo do espectro. Para além de maximizar o valor social da alocação do espectro, pensar um modelo de compartilhamento inteligente em faixas como 6 GHz ajudaria a multiplicar soluções de última milha, expandir Wi-Fi em alta capacidade (sem comprometer redes móveis) e tornar a conectividade significativa uma realidade para mais pessoas.

 

  1. Os dados de tráfego mostram que o Brasil é um país “Wi-Fi first

Os números de tráfego de dados de internet reforçam um padrão consolidado: embora as redes móveis tenham avançado, o consumo de dados no Brasil ainda é massivamente concentrado no Wi-Fi. Mesmo com a expansão da 4G e da 5G, o tráfego móvel representa apenas uma pequena fração do volume total de dados trafegados no país.

Isso não significa que o móvel seja menos relevante (longe disso, é parte essencial do ecossistema), mas mostra que a maioria dos brasileiros utiliza a banda larga fixa como principal meio de acesso para conteúdos ou atividades de alto consumo de dados. Dispositivos conectados, streaming, teletrabalho e educação online tornam-se cada vez mais dependentes de redes Wi-Fi robustas. E aqui volta a questão da escassez: se o espectro é limitado, precisamos destiná-lo de maneira que maximize não apenas receitas de licenciamento, mas o valor econômico e social gerado por cada mega-hertz.

O crescimento constante dos acessos fixos na última década, impulsionado por milhares de provedores regionais, demonstra que o ecossistema de banda larga é resiliente e essencial para o país. Para que esse ecossistema continue florescendo, é necessário garantir mais espectro não licenciado, permitindo redes Wi-Fi mais robustas, de maior capacidade e com menor interferência.

É uma questão de adequar a política pública ao comportamento real do consumidor, não apenas ao modelo de negócios tradicional do setor móvel. Essa mudança de paradigma não reduz a relevância do móvel. Ao contrário, permite que as redes móveis sejam usadas onde realmente são insubstituíveis: mobilidade plena, cobertura ampla e aplicações críticas.

 

  1. Um modelo mais equilibrado fortalece todo o ecossistema e incentiva inovação

Do ponto de vista empresarial, a ampliação do uso não licenciado não é uma ameaça ao setor móvel. Modelos menos dependentes de espectro licenciado estimulam inovação, reduzem barreiras de entrada e permitem que tanto operadoras quanto provedores regionais testem novas soluções baseadas em redes híbridas. É uma forma de reduzir custos, ampliar capacidade agregada e estimular modelos híbridos de conectividade que beneficiam toda a cadeia.

Uma política de espectro que combine espectro licenciado para redes móveis com faixas generosas para uso não licenciado cria condições ideais para inovação e para modelos empresariais que integram Wi-Fi e 5G de maneira complementar. Para assegurar conectividade significativa, as redes móveis precisarão coexistir com ambientes Wi-Fi robustos. Uma política que privilegia o equilíbrio não reduz o espaço do móvel, mas expande o campo de oportunidades para todos os players, criando uma base de conectividade mais densa e acessível, especialmente em aplicações empresariais, IoT, indústria 4.0 e redes privativas.

Então, como vamos seguir?

O futuro da conectividade no Brasil exige uma abordagem mais plural, mais flexível e mais eficaz diante da escassez de espectro disponível. Não se trata de escolher entre móvel ou fixa, mas de construir um ecossistema onde ambos coexistam de forma estratégica e inteligente. A reflexão proposta por Webb nos lembra que insistir em velhos paradigmas é desperdiçar oportunidades em um setor que avança rápido demais para decisões baseadas na inércia.

Já podemos ver esforços internacionais para construir modelos híbridos de utilização do espectro, impulsionando o compartilhamento efetivo. Empresários e reguladores precisam, juntos, repensar a lógica de alocação do espectro – e talvez reconhecer que um país que consome internet majoritariamente via Wi-Fi precisa de uma política de espectro mais compatível com esse comportamento.

Talvez o “fim” da história das telecoms seja apenas o convite para começarmos uma nova era. Nos cabe decidir se queremos liderá-la ou apenas acompanhá-la à distância.

 

Rhian Duarte

Jessica Paz

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