Barcelona sempre entrega ao setor de telecomunicações uma espécie de termômetro do futuro. Mas, no MWC 2026, a sensação foi diferente. Ali não se tratava apenas de observar as tendências, mas de perceber que muitas delas já começaram a moldar, agora, as decisões que vão definir os rumos da conectividade já nos próximos anos.
O evento deixou claro que a infraestrutura digital entrou de vez em uma nova etapa: mais inteligente, mais automatizada, mais integrada a dados, software, segurança e inteligência artificial.
A conectividade continua sendo o coração da transformação digital, mas já não é mais vista apenas como cobertura, velocidade ou capacidade de rede. Em Barcelona, ela apareceu como base de tudo, da inteligência artificial aos novos modelos de negócio, da experiência do usuário à competitividade econômica, da segurança digital à soberania tecnológica.
Foi um MWC em que a rede deixou de ser pano de fundo e voltou a ocupar o centro do palco, só que agora com uma responsabilidade ainda maior. A atmosfera do evento refletia isso em cada corredor, painel e reunião. Falou-se muito em IA, Open Gateway, redes mais programáveis, edge computing, data centers, satélites, IoT, 5G avançado e infraestrutura inteligente.
Mas, por trás de todas essas expressões, havia uma mensagem simples, a de que o setor está sendo chamado a construir redes que não sejam apenas robustas, mas também mais eficientes, mais inteligentes e mais preparadas para sustentar uma economia cada vez mais digitalizada.
Para o Brasil, e especialmente para o universo dos provedores regionais, esse debate não poderia ser mais relevante. Muitas das questões discutidas em Barcelona dialogam diretamente com a realidade de quem está no dia a dia da operação, enfrentando aumento de tráfego, pressão por eficiência, demanda crescente por qualidade, desafios regulatórios, necessidade de expansão e custos altos de infraestrutura.
Foi justamente nesse contexto que a presença da Abrint no MWC 2026 ganhou ainda mais importância. A Associação não foi apenas acompanhar tendências. Foi levar ao debate internacional as pautas dos provedores regionais e, ao mesmo tempo, trazer de volta todas as reflexões, conexões e referências úteis para o setor brasileiro.
Um dos temas que mais atravessou a agenda da Abrint em Barcelona foi o 6 GHz. E não por acaso. Ao longo do evento, o debate sobre Wi-Fi de nova geração, uso outdoor, AFC, capacidade espectral e evolução do ecossistema Wi-Fi apareceu de forma recorrente em conversas com empresas, entidades e atores internacionais. Mais do que um tema técnico, representa uma discussão que toca diretamente a experiência do usuário, a eficiência da rede e a capacidade de acompanhar a explosão de demanda por conectividade de alta qualidade.
Esse ponto merece destaque porque, durante muito tempo, parte do debate público sobre conectividade ficou excessivamente concentrada na rede de acesso, como se o valor do serviço terminasse no momento em que a conexão chegasse ao imóvel.
O que o MWC mostrou com muita força é que isso já não basta. A experiência real do usuário depende cada vez mais do desempenho dentro dos ambientes conectados, da qualidade do Wi-Fi, da densidade de uso, da convivência entre dispositivos e da capacidade de suportar aplicações mais intensivas em dados. Discutir 6 GHz, portanto, é discutir qualidade percebida, eficiência e futuro. Para os provedores regionais, essa não é uma pauta lateral. É central.
Ao longo de todos os dias de participação no evento, a Abrint também reforçou outro ponto essencial, o de que os provedores regionais precisam estar presentes nas grandes conversas sobre o futuro das telecomunicações, não como coadjuvantes, mas como protagonistas de uma parte decisiva da conectividade brasileira.
Em reuniões e interlocuções institucionais, a Associação levou temas como compartilhamento de postes, previsibilidade regulatória, custos de fibra, modernização tecnológica e ambiente competitivo. São assuntos que, embora muitas vezes pareçam restritos à Agenda Institucional, impactam diretamente a capacidade de investimento, expansão e sustentabilidade dos ISPs em todo o país.
E talvez um dos aspectos mais interessantes da presença da Abrint em Barcelona tenha sido justamente mostrar que os provedores regionais brasileiros não podem mais ser lidos apenas sob a ótica de mercado. Eles são, cada vez mais, peças fundamentais para pensar conectividade significativa, capilaridade territorial e inclusão digital com viabilidade prática.
Isso ficou evidente nas agendas voltadas a áreas remotas, infovias, conectividade escolar, monitoramento de localidades desconectadas e formação técnica. Em um cenário em que o mundo discute como levar conectividade relevante a quem ainda está à margem da transformação digital, a experiência dos provedores regionais brasileiros têm muito a ensinar.
Já não se fala em IA como uma camada separada da rede, algo externo à operação. A discussão agora é sobre como a inteligência artificial se incorpora à gestão da infraestrutura, à automação, à análise de desempenho, à otimização de rede e à criação de novos serviços. Isso vale para todo o ecossistema, inclusive para os provedores regionais.
À medida que a operação se torna mais complexa, com mais dispositivos, mais dados, mais exigência de qualidade e mais necessidade de eficiência, cresce também a importância de ferramentas, parcerias e modelos capazes de tornar essa gestão mais inteligente. Em Barcelona, ficou claro que esse movimento já está em curso. E que ele não é exclusivo das grandes operadoras globais. Ele interessa, e muito, ao universo dos ISPs, que têm demonstrado enorme capacidade de adaptação, proximidade com o cliente e velocidade de execução.
O mais interessante no MWC, no entanto, talvez tenha sido perceber que, em meio a tanto discurso sobre futuro, houve também muito espaço para uma discussão bastante concreta sobre o presente. A infraestrutura continua importando. Regulação continua importando. Espectro continua importando. Fibra continua importando. Dados continuam importando.
O que mudou foi a forma como tudo isso passou a ser enxergado: não mais como temas isolados, mas como partes de uma mesma equação. E nessa equação, quem conseguir combinar tecnologia, escala, inteligência, sustentabilidade e presença territorial estará melhor posicionado para liderar o próximo ciclo do setor.
É exatamente por isso que a participação da Abrint no MWC 2026 foi tão simbólica e tão estratégica. Ao inserir as pautas dos provedores regionais nas discussões internacionais, a associação ajuda a mostrar que o Brasil não está apenas observando o que acontece lá fora. Está contribuindo com uma experiência concreta, diversa e territorialmente capilarizada de conectividade. Uma experiência construída por milhares de provedores que, diariamente, conectam cidades, comunidades, empresas, escolas e pessoas em realidades muito diferentes entre si.
No fim, o MWC 2026 deixou essa forte impressão de que o futuro da conectividade será disputado menos no campo do discurso e mais na capacidade de transformar infraestrutura em valor, inovação em escala e tecnologia em experiência real. E, nesse cenário, os provedores regionais brasileiros têm um papel muito maior do que às vezes se imagina. A presença da Abrint em Barcelona foi, acima de tudo, a reafirmação de que essa voz está preparada para participar desse debate no mais alto nível, sem perder de vista aquilo que mais importa: a realidade concreta de quem conecta o Brasil todos os dias.
REFERÊNCIAS
- GSMA MWC26 Barcelona closes 20th anniversary edition
- Intelligent Infrastructure shifts telecom from connectivity to Intelligence
- MWC26: Commercial opportunities driving the trends at this year’s event
- Mapeamento interno de reuniões e encaminhamentos (Abrint)
Liandro Carniel, Diretor de Comunicação e Marketing da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint)



