A sigla ESG (Environmental, Social, and Governance) vem ganhando cada vez mais relevância no mundo corporativo, e o mercado de telecomunicações não está imune a essa transformação. A adoção de práticas que respeitam o meio ambiente, que promovem a responsabilidade social e que sigam princípios de boa governança está se tornando um diferencial competitivo e uma exigência crescente tanto dos próprios usuários quanto dos prestadores de serviço.
Segundo a EY Global Reporting and Institutional Investor Survey, 83% dos investidores consideram que o desempenho em ESG será fator importante para decisões de investimento nos próximos anos. Portanto, para as empresas, isso torna a adoção dessas práticas uma prioridade estratégica, já que os entrevistados reconhecem que as ações de sustentabilidade terão impacto moderado, significativo ou muito significativo em seus negócios.
O Brasil, com sua vasta extensão territorial e desigualdades sociais, apresenta desafios e oportunidades únicas para a implementação do ESG no campo das comunicações. A expansão da cobertura de internet nas áreas rurais e de baixa renda, a redução da desigualdade digital e a promoção da inclusão social são alguns dos principais desafios a serem enfrentados.
Diversidade do papel das telecom em momentos de crises
Nesse contexto, no setor de telecomunicações – que é fundamental para uma sociedade conectada – o ESG é visto como uma das oportunidades para alavancar mudanças positivas e demonstrar compromisso com um futuro mais sustentável e responsável. Durante a pandemia da COVID-19, por exemplo, a categoria foi um dos pilares que sustentaram a continuidade de demais serviços essenciais, sendo parceira direta dos governos locais.
Atendendo a uma necessidade apontada pelo Ministério das Comunicações, pequenas prestadoras de serviços de telecomunicações, representadas por entidades como Abrint, Abramulti, Abranet, Apronet, InternetSul, Redetelesul, SEINESP e SEINESBA, se uniram voluntariamente durante aquele período para fornecer conexão a postos de saúde e hospitais temporários, o que permitiu que o atendimento remoto e dinâmico, a ininterrupção do compartilhamento de informações e a telemedicina se tornassem realidades.
Nesse momento lamentável da história, provedores de internet regionais desempenharam um papel crucial ao garantir e expandir a conectividade para trabalho remoto, acesso a serviços de saúde e manutenção do contato com familiares. Em vista disso, percebemos que o impacto social do grupo foi particularmente exímio no atendimento a comunidades remotas e vulneráveis, uma vez que não só ajudaram a salvar vidas, como também solidificaram a importância do ramo na infraestrutura social.
Outro exemplo admirável foi o suporte às escolas. Com o fechamento das instituições de ensino, o setor de telecomunicações assumiu uma responsabilidade central na garantia de que os alunos, especialmente os de áreas carentes, pudessem continuar estudando. Provedores colaboraram com prefeituras e governos estaduais para oferecer internet às escolas, viabilizando o ensino à distância. Em alguns casos, essa conectividade permitiu que programas de inclusão digital fossem implementados, ampliando o acesso à tecnologia e reduzindo a exclusão escolar.
Essas iniciativas além de atenderem os critérios sociais do ESG, também demonstram novamente a importância das telecomunicações na promoção de igualdade de oportunidades, acesso à educação e melhoria da qualidade de vida. Percebemos que, em um mundo cada vez mais dependente da conectividade, a responsabilidade social do setor se expande para garantir que todos, independentemente de sua localização ou situação econômica, tenham acesso à internet e aos serviços essenciais que ela possibilita.
A governança e o olhar no futuro
Já sobre a governança, percebida como fundamental para o crescimento sustentável de qualquer empresa, os provedores de telecom, especialmente os regionais e de pequeno porte, precisam ficar atentos à importância de organizar suas estruturas empresariais de olho no futuro. Um dos desafios mais críticos que muitas dessas empresas enfrentam é a sucessão de seus líderes.
O setor de telecomunicações ao redor do país é dominado por milhares de pequenos provedores, cerca de 54% de todo o setor, sendo frequentemente empresas familiares. Embora essas empresas tenham um protagonismo na conectividade de áreas remotas, sua continuidade depende de uma governança bem estruturada e de um planejamento sucessório eficaz.
Uma governança sólida requer que as empresas tenham uma visão de longo prazo e estejam preparadas para o inevitável: a mudança de liderança. Assim, implementar planos de sucessão, formar novos líderes e garantir que os processos internos sejam suficientemente robustos para suportar essas transições é fundamental.
No mesmo nível, a governança de dados, a segurança da informação e a ética no uso dos dados dos consumidores seguem como questões prioritárias, os quais exigem atenção redobrada para evitar sanções e danos à reputação das empresas.
ESG como ferramenta para a sustentabilidade e crescimento
O ESG está se consolidando como um norte para empresas de diversos setores, e no mercado de telecomunicações ele se apresenta como uma bússola para o desenvolvimento sustentável e responsável. Ao adotarem práticas sociais, como o suporte a serviços essenciais durante crises, e de governança, como o fortalecimento de suas estruturas para o futuro, os provedores de telecom estão contribuindo para um mercado mais equitativo, transparente e preparado para os desafios das próximas décadas.
Esse compromisso com o ESG não é apenas uma forma de cumprir exigências regulatórias ou atender expectativas de mercado. Ele representa uma mudança de mentalidade, na qual as telecomunicações passam a ser vistas não apenas como uma infraestrutura técnica, mas como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento social e econômico. Ao olharem para o futuro, as empresas do setor de telecomunicações podem usar o ESG como alicerce para garantir que seus serviços não só atendam às demandas atuais, mas também contribuam para um futuro mais conectado, sustentável e justo para toda a sociedade brasileira.
Autora: Stella Maris Marques Freire de Medeiros.
Sobre a autora: Conselheira da Abrint. Especialista em Administração de Empresas e Finanças. Graduada em MKT e Vendas. Sócia e Diretora Executiva do Grupo TCM Telecom



